No início do ano, embalado por aquele clima de mudanças e renovações, decidi que não manteria mais este blog no ar. Claro, não foi tão simples, a decisão foi um pouco (leia-se bastante) dolorosa. Tudo que faz parte de nossas vidas por tanto tempo, mesmo que encha um pouco o saco, deixa muitas saudades quando acaba; vira parte de uma rotina, vira parte de você mesmo.
Decidi que “Pó de saudade” seria o último texto, mas julguei apropriado uma despedida e os merecidos agradecimentos, então cá estou. Não há muito que explicar, é uma coisa que bate e você se sente meio obrigado a fazer: fases. Até que essa durou bastante, foram mais de três anos de blog. Três anos de textos, três anos de desabafo, poesia, filosofia, política e tudo mais que eu incorporava ao passo que amadurecia. Foi uma experiência, foi um entretenimento e, acima de tudo, um divã. Aliás, foi justamente isso o que passou a me incomodar mais nos últimos tempos em relação ao blog.
Percebi o quão introspectiva era a minha poesia e o quanto de mim mesmo eu expunha para os outros sem passar mensagem alguma. Fragmentos de minha alma decifrados o tempo inteiro no nefasto mundo online – difícil. Outro agravante foi o projeto em que me envolvi, o Futebologia (www.futebologiabrasil.blogspot.com). Julgo impossível manter as duas coisas num alto nível de comunicação, então optei pelo que mais gosto e pelo que realmente quero para o meu futuro profissional.
Não há mais motivo para embolações. O que quero de verdade é agradecer a vocês por esse tempo todo. Eu sei, nem todos estiveram o tempo todo, mas isso não tem a menor importância. Agradeço cada acesso, cada comentário, cada mínimo interesse, cada energia positiva que seja. Agradeço, pois foram vocês que sustentaram isso, sem público eu não teria motivação alguma para continuar escrevendo como fiz durante três longos anos, mês após mês, dia após dia.
Mesmo que peçam, não manterei o blog no ar sem novas atualizações, pois acho que deve haver um rompimento brusco para que a realidade fique clara e escancarada. Deixá-lo-ei agonizando por mais alguns dias, talvez alguém queira ler mais algumas coisas, salvar algum texto, enfim, fiquem à vontade. Mais uma vez, obrigado!
Beto Passeri
Se existe verdade, mesmo que relativa, que se revele entre as palavras, que, jogadas ao vento, lavam a alma e libertam o pensamento.
sábado, 26 de fevereiro de 2011
domingo, 20 de fevereiro de 2011
Pó de saudade
Inútil proferir qualquer saudade!
Há tempos fez-se o pó, enquanto o vento
O pó levou consigo em um momento
Distante qual perdida antiguidade.
Embora deste tempo reste o riso
Perpetuado, a alma cansada
Já não almeja aquilo que almejava.
Incrédulo desdenho o que sinto.
Saudade é vil, perfídia ao presente,
Sorriso ao ser lembrado é descontente
Ao tomar o lugar que deveria
Pertencer a um sorriso mais recente.
Mas nada há de negar, inutilmente,
Que esta saudade já foi alegria.
Há tempos fez-se o pó, enquanto o vento
O pó levou consigo em um momento
Distante qual perdida antiguidade.
Embora deste tempo reste o riso
Perpetuado, a alma cansada
Já não almeja aquilo que almejava.
Incrédulo desdenho o que sinto.
Saudade é vil, perfídia ao presente,
Sorriso ao ser lembrado é descontente
Ao tomar o lugar que deveria
Pertencer a um sorriso mais recente.
Mas nada há de negar, inutilmente,
Que esta saudade já foi alegria.
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
Só
O medo de que a única voz ouvida seja o eco da nossa é constante. A solidão é estar em companhia consigo mesmo, e nós somos tão rudes, tão egoístas em nosso íntimo a ponto de nos refutarmos.
Estar só é estar acompanhado de tudo que se esconde dos outros, é estar com o eu que não mostramos a ninguém, é estar com nossas angústias, anseios, nossos desejos, nossas buscas, nossas recusas. Estar só é obrigar-se a estar acompanhado do silêncio eloquente do nosso âmago; é escutar a voz interior contando-nos como somos de fato, o que temos de essência e o que mudou.
Mas, estar só é saber observar erros e acertos, é glorificar-se pelo que nos agrada, é arrepender-se das escolhas (e das renúncias, uma não vem sem a outra), é saber que a nossa existência é extremamente importante; para nós apenas.
Estar só é estar acompanhado de tudo que se esconde dos outros, é estar com o eu que não mostramos a ninguém, é estar com nossas angústias, anseios, nossos desejos, nossas buscas, nossas recusas. Estar só é obrigar-se a estar acompanhado do silêncio eloquente do nosso âmago; é escutar a voz interior contando-nos como somos de fato, o que temos de essência e o que mudou.
Mas, estar só é saber observar erros e acertos, é glorificar-se pelo que nos agrada, é arrepender-se das escolhas (e das renúncias, uma não vem sem a outra), é saber que a nossa existência é extremamente importante; para nós apenas.
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
Edipiano
Como uma criança que cresceu e precisa alcançar voos mais altos. É sempre necessário sair do “ninho de amor” para entender a rigidez da vida, e - por que não? - tomar gosto por ela. É insano para a Mãe entendê-lo; parece mais acertado prorrogar a partida, seja por quanto tempo for. O zelo, a dedicação, o carinho... Tudo trocado por uma falsa liberdade. Sempre houve troca, sempre houve mutualidade, mas num determinado momento a relação ficou aleijada, ou pelo menos deu essa impressão.
A Mãe, mesmo a contragosto, acha que talvez tenha se entregado de forma exagerada – na linguagem materna, claro - e se sente um pouco traída, inclusive por si mesma. O Filho jamais conseguirá explicar o equívoco nesse raciocínio e contar que, às vezes, o mundo simplesmente chama. O amor não acaba; o contrato acaba.
A Mãe, mesmo a contragosto, acha que talvez tenha se entregado de forma exagerada – na linguagem materna, claro - e se sente um pouco traída, inclusive por si mesma. O Filho jamais conseguirá explicar o equívoco nesse raciocínio e contar que, às vezes, o mundo simplesmente chama. O amor não acaba; o contrato acaba.
domingo, 23 de janeiro de 2011
Ventríloquo
Eu sou o que sou, mas nem sempre o que mostro. A sociedade impõe regras que ela não segue. Onde os direitos são abafados pelo medo do ridículo. Onde os sonhos são omitidos pela imagem de ser o que outros projetam sobre você. Onde máscaras escondem dores, lágrimas, medos e desejos. Um mundo criado pela humanidade, onde muitos vivem, poucos querem estar, e ninguém é feliz.
sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
Já houveram mais flores neste jardim
Já houveram mais flores neste jardim. Parece que as tempestades devastaram a beleza que residia neste local. As abelhas, antes alegres por terem rápido e fácil acesso ao pólen e, cá entre nós, alegres por terem um belo local para namorarem, hoje já não aparecem mais; só uma ou outra, de quando em quando.
Os ventos só fazem arrastar as folhas secas de lugar, mas elas permanecem apodrecendo, empestando, emporcalhando um local antes tão sagrado, limpo, ajeitado.
Não existe beleza na miséria, não mais.
Já houveram mais flores neste jardim. A fina chuva que hoje cai não serve pra amenizar o sofrimento das flores que, murchas, pálidas, feias, agonizam esperando sua hora chegar. Conversando entre si, elas se perguntam o que houve sem obterem respostas concretas de nenhum lado. Apenas ervas daninhas, apenas ervas daninhas.
Doações para a região serrana em: http://www.vivario.org.br/publique/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=2096&sid=16
Os ventos só fazem arrastar as folhas secas de lugar, mas elas permanecem apodrecendo, empestando, emporcalhando um local antes tão sagrado, limpo, ajeitado.
Não existe beleza na miséria, não mais.
Já houveram mais flores neste jardim. A fina chuva que hoje cai não serve pra amenizar o sofrimento das flores que, murchas, pálidas, feias, agonizam esperando sua hora chegar. Conversando entre si, elas se perguntam o que houve sem obterem respostas concretas de nenhum lado. Apenas ervas daninhas, apenas ervas daninhas.
Doações para a região serrana em: http://www.vivario.org.br/publique/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=2096&sid=16
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
Fábula da estrela

Junto ao mar estendia os braços para ela, adorava-a, sonhava com ela e lhe dedicava todos os seus pensamentos. Mas sabia, ou pensava saber, que um homem não pode tocar uma estrela. Imaginava que seu destino era amá-la sempre sem esperanças e construiu sobre essa ideia toda uma vida de renúncias e de dores, muda e fiel, que devia purificá-lo e enobrecê-lo.
Uma noite, estava de novo sentado junto ao mar, no alto de uma pedra, contemplando a amada e ardendo na intensidade de suas quimeras. E num instante de profundo anseio, saltou no vazio para tocar aquela luz. Mas ainda não pensou na impossibilidade de alcançá-la e caiu, arrebentando-se contra as rochas.
Não sabia amar. Se no momento de saltar tivesse força de alma bastante para crer fixa e seguramente na obtenção de seu desejo, teria voado para o céu a encontrar sua Estrela.
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